O
mais importante que já fiz em minha vida - 05/02/2012
Um
dia, durante uma conversa entre advogados, me fizeram uma pergunta:
-O
que de mais importante você já fez na sua vida?
A
resposta me veio à mente na hora, mas não foi a que respondi pois
as circunstâncias não eram apropriadas. No papel de advogado da
indústria do espetáculo, sabia que os assistentes queriam escutar
anedotas sobre meu trabalho com as celebridades. Mas aqui vai a
verdadeira, que surgiu das profundezas das minhas recordações.
O
mais importante que já fiz na minha vida, ocorreu em 8 de outubro
de 1990. Comecei o dia jogando golfe com um ex-colega e amigo meu
que há muito não encontrava.
Entre
uma jogada e outra, conversávamos a respeito do que acontecia na
vida de cada um. Ele me contava que sua esposa e ele acabavam de ter
um bebê. Enquanto jogávamos chegou o pai do meu amigo que,
consternado, disse-lhe que seu bebê parara de respirar e que fora
levado para o hospital com urgência. No mesmo instante, meu amigo
subiu no carro de seu pai e se foi.
Por
um momento fiquei onde estava, sem pensar em mover-me, mas logo
tratei de pensar no que deveria fazer:
Seguir
meu amigo ao hospital? Minha presença, disse a mim mesmo, não
serviria de nada pois a criança certamente estaria sob cuidados de
médicos, enfermeiras e nada havia que eu pudesse fazer para mudar a
situação.
Oferecer
meu apoio moral? Talvez, mas tanto ele quanto sua esposa vinham de
famílias numerosas e sem dúvida estariam rodeados de amigos e
familiares que lhes ofereceriam apoio e conforto necessário
acontecesse o que acontecesse. A única coisa que eu faria indo até
lá, era atrapalhar. Decidi que mais tarde iria ver o meu amigo.
Quando
dei a partida no meu carro, percebi que o meu amigo havia deixado o
seu carro aberto com as chaves na ignição, estacionado junto às
quadras de tênis. Decidi, então, fechar o carro e ir até o
hospital entregar-lhe as chaves.
Como
imaginei, a sala de espera estava repleta de familiares que os
consolavam. Entrei sem fazer ruído e fiquei junto à porta pensando
o que deveria fazer. Não demorou muito e surgiu um médico que se
aproximou do casal e em voz baixa, comunicou o falecimento do bebê.
Durante
os instantes que ficaram abraçados - a mim pareceu uma eternidade -
choravam enquanto todos os demais ficaram ao redor naquele silêncio
de dor. O médico lhes perguntou se desejariam ficar alguns
instantes com a criança. Meus amigos ficaram em pé e caminharam
resignadamente até a porta. Ao ver-me ali, aquela mãe me abraçou
e começou a chorar. Também meu amigo se refugiou em meus braços e
me disse:
-Muito
obrigado por estar aqui!
Durante
o resto da manhã fiquei sentado na sala de emergências do
hospital, vendo meu amigo e sua esposa segurar nos braços seu bebê,
despedindo-se dele. Isso foi o mais importante que já fiz na minha
vida. Aquela experiência me deixou três lições:
Primeira:
o mais importante que fiz na vida, ocorreu quando não havia
absolutamente nada, nada que eu pudesse fazer. Nada daquilo que
aprendi na universidade, nem nos anos em que exerci minha profissão,
nem todo o racional que utilizei para analisar a situação e
decidir o que eu deveria fazer, me serviu para aquela circunstância:
duas pessoas receberam uma desgraça e nada eu poderia fazer para
remediar. A única coisa que poderia fazer era esperar e acompanhá-los.
Isto era o principal.
Segunda:
estou convencido de que o mais importante que já fiz na minha vida
esteve a ponto de não ocorrer, devido às coisas que aprendi na
universidade, aos conceitos do racional que aplicava na minha vida
pessoal, assim como na profissional. Ao aprender a pensar, quase me
esqueci de sentir. Hoje, não tenho dúvida alguma de que devera ter
subido naquele carro sem vacilar e acompanhar meu amigo ao hospital.
Terceira:
aprendi que a vida pode mudar em um instante. Intelectualmente todos
nós sabemos disso, mas acreditamos que os infortúnios acontecem
com os outros. Assim, fazemos nossos planos e imaginamos nosso
futuro como algo tão real como se não houvesse espaços para
outras ocorrências. Mas ao acordarmos de manhã, esquecemos que
perder o emprego, sofrer uma doença, ou cruzar com um motorista
embriagado e outras mil coisas, podem alterar este futuro em um
piscar de olhos. Para alguns é necessário viver uma tragédia para
recolocar as coisas em perspectiva.
Desde
aquele dia busquei um equilíbrio entre o trabalho e a minha vida.
Aprendi que nenhum emprego, por mais gratificante que seja, compensa
perder umas férias, romper um casamento ou passar um dia festivo
longe da família. E aprendi, que o mais importante da vida não é
ganhar dinheiro, nem ascender socialmente, nem receber honras. O
mais importante da vida é ter tempo para cultivar as amizades.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.