Idolatria
- 21/02/2010
Conta-se
que vivia em um velho hotel em Marrakech, um homem de nome Vladimir
Kolievich.
Falava
pouco e quando conversava com os outros hóspedes não fazia referências
sobre seu passado. Deixava, às vezes, escapar observações
eruditas, que davam mostras de grande e extraordinário saber.
Uma
noite, quando vários hóspedes se encontravam reunidos na sala, uma
jovem escritora russa perguntou se alguém saberia onde ficava um
rio de nome Falgu.
Embora
se tratassem de pessoas cultas e estudiosas, todos confessaram
ignorar tal informação.
Para
surpresa geral, porém, o misterioso Vladimir aproximou-se dizendo:
-O
rio Falgu fica perto da cidade de Gaya, na Índia. Para os budistas
é considerado um rio sagrado, pois junto a ele Buda teria recebido
a inspiração divina.
Diante
da admiração de todos, ele continuou:
-Seu
leito apresenta-se coberto de areia, parecendo eternamente seco, árido
como um deserto. O viajante que dele se aproxima não vê água, nem
ouve o menor rumor do líquido. Cavando-se, porém, alguns palmos na
areia, encontra-se um lençol de água pura e límpida.
E
com a simplicidade e a clareza peculiares aos grandes sábios,
passou a contar coisas curiosas, não só da índia, mas também de
diversas partes do mundo.
Falou
sobre "Filanezes", espécie de cadeiras usadas pelos
habitantes de Madagascar, quando viajam.
Depois
discorreu a respeito da vida e da obra de diversos romancistas
franceses.
Todos
estavam admirados com a facilidade com que ele passava de um assunto
para outro, sem perder a segurança, não deixando pairar qualquer dúvida
sobre a extensão de seus conhecimentos.
De
repente começou uma forte ventania e algumas pessoas ali presentes
mostraram-se assustadas. Vladimir acalmou a todos, tecendo comentários
esclarecedores sobre variados flagelos da natureza.
No
dia seguinte um dos hóspedes, seriamente intrigado, procurou
Vladimir para saber, afinal, quem seria aquele sábio que quase
passara ignorado:
"O
senhor maravilhou-nos ontem com seu saber. Não imaginávamos que
tivesse tão grande cultura. Na sua academia, com certeza..."
Foi
interrompido por Vladimir que se sentia muito constrangido pela
forma como era tratado.
-Não
me considere um sábio. Eu pouco sei, ou melhor, nada sei. Não
reparou nas palavras de que tratei? Falgu, Filanezes, França,
flagelos... Todas começam com a letra “f”.
Como
o seu interlocutor parecia surpreso, explicou:
-Estive,
por motivos políticos, preso durante dez anos nas prisões da Sibéria.
O condenado que havia ficado antes na cela em que me puseram, deixou
os restos de uma velha enciclopédia. Como não havia com o que mais
me ocupar, li e reli, centenas de vezes as páginas que possuía.
Eram todas da letra “f”.
-Sou
precisamente o contrário do rio Falgu, pois pareço possuir uma
correnteza enorme e profunda de saber. No entanto, minha erudição
não vai além de alguns verbetes decorados da letra “f” de uma
velha enciclopédia.
[com
base em livro de Malba Tahan]
As
pessoas costumam se iludir facilmente com aparências e belas
palavras.
Criam
expectativas, idolatram os outros, para logo em seguida, ao conhecê-los
um pouco melhor se dizerem desapontados e desiludidos.
Só
se desilude quem se ilude, porque buscamos mitos e modelos em seres
tão imperfeitos quanto nós mesmos.
A
idolatria, muitas vezes desenfreada, transforma participantes de
BBBs em ídolos, atores em modelo de vida, cantores em exemplos a
ser seguido. É necessário muito cuidado, pois todos nós estamos
no mesmo barco, como meros aprendizes, com defeitos e qualidades,
buscando a evolução de nossa alma.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.