A
memória esvaindo-se - 14/06/2009
O
cenário é comum, a cena é singela. Num banco de jardim da casa
estão sentados um homem idoso e o seu filho jovem em torno dos 20
anos.
O
jovem lê o jornal, com atenção. O idoso parece imerso em algo
indefinível.
Então,
um pequeno pássaro pousa no arbusto próximo e canta. O homem
parece despertar e indaga:
-O
que é aquilo, meu filho? - apontando com o dedo na direção da
pequena ave.
O
rapaz alça os olhos e diz, secamente: -É um pardal.
A
avezita saltita de um galho a outro e a pergunta se repete:
-O
que é aquilo?
A
resposta agora não é somente seca, mas também denota enfado:
-Já
disse, é um pardal!
O
pássaro voa do arbusto para a árvore, continuando na sua dança
matinal.
-O
que é aquilo? - soa de novo.
Agora,
o rapaz se irrita e quase grita: -É um pardal!
A
ave, feliz, prossegue no seu bailar. Alça vôo e parece
desaparecer. Poucos segundos passados e retorna ao chão, bicando
aqui, saltitando acolá.
O
homem leva a mão aos olhos, como se desejasse ajustar a visão embaçada
e, com natural curiosidade, pergunta:
-O
que é aquilo?
O
filho responde, em altos brados: -É um pardal! Já disse: um
pardal.
E
soletra, aos gritos: -P - a - r - d - a - l. Você não entende?
O
homem se ergue, sobe os degraus, adentra a casa, lento e decidido.
Pouco depois, retorna com um velho caderno nas mãos.
A
capa é bonita, denotando que foi guardado com cuidado, como se
guardam preciosidades.
Abre-o,
procura algo, depois o entrega ao rapaz, ainda inquieto e raivoso.
-Leia!
- ele pede. E acrescenta: -Em voz alta!
Há
surpresa no moço, que lê pausada e cada vez com maior emoção:
“Hoje,
meu filho caçula, que há uns dias completou 3 anos, estava sentado
comigo, no parque, quando um pardal pousou na nossa frente. Meu
filho me perguntou 21 vezes o que era aquilo e eu respondi em todas
as 21 vezes que era um pardal. Eu o abracei todas as vezes que ele
repetiu a pergunta, vez após vez, sem ficar bravo, sentindo afeição
pelo meu inocente garotinho.”
Então,
o filho olha o pai. Há culpa e dor em sua alma.
Abraça-o,
lacrimoso, beija-lhe a face, emoldurada pela barba por fazer.
Estreita-o,
puxando-o para perto de si. E assim ficam: um coração ouvindo
outro coração.
[com
base em vídeo de Constantin Pilavios e da Redação do Momento Espírita]
Cenas
como essa acontecem todos os dias, em milhares de lares, em todo o
mundo.
Nossos
anciãos, de braços dados com Alzheimer, demência senil ou outros
problemas da idade, indagam, perguntam, questionam.
A
memória recente lhes falha. Mergulhados em retalhos de lembranças
do passado, não entendem porque recebem gritos como resposta.
Pensemos
nisso! E se as lágrimas nos umedecerem os olhos, não tenhamos
vergonha de abraçar com amor nosso velho pai, nossa mãe, vovó,
vovô, madrinha, tia... Agora.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.