Amar
por toda a vida - 11/01/2009
Ela
era uma velhinha que morava sozinha, em uma grande casa. Não tinha
amigos porque, ao longo dos anos, ela os vira morrer, um a um.
Seu
coração era um poço de saudade e de perdas. Por isso, ela
decidira que nunca mais se ligaria afetivamente a ninguém.
E,
para se lembrar que um dia tivera amigos, passara a chamar as coisas
pelos nomes dos amigos que haviam morrido. Sua cama se chamava
Belinha. Era grande, sólida e confortável. Mesmo depois que ela se
fosse, Belinha continuaria a existir.
A
poltrona confortável da sala de visitas se chamava Frida. Haveria
de durar muitos anos mais. A casa se chamava glória. Tinha sido
construída há mais de cem anos, mas não aparentava mais que
vinte. Era feita de madeira muito forte, vigorosa.
E
o carro, grande, espaçoso se chamava Beto. "Haveria
de servir", pensava a velhinha, "para
alguém, depois de sua morte".
E
assim vivia a velhinha solitária.
Certo
dia, quando estava lavando a lama de Beto, um cachorrinho chegou no
portão. O portão não tinha nome, porque ela achava que ele logo
teria que ser substituído. Suas dobradiças estavam enferrujadas e
a madeira apodrecida.
O
animalzinho parecia estar com fome e ela tirou um pedaço de
presunto da geladeira e o deu ao cão, mandando-o embora. Porém, no
dia seguinte, ele voltou. E no outro e no outro. Todos os dias, ele
vinha, abanava o rabo e ela o alimentava, mandando-o embora.
Ela
dizia que Belinha não comportava um adulto e um cachorro, que Frida
não gostava que cães sentassem nela e glória não tolerava pêlo
de cachorro.
E
Beto? Bom, esse fazia os cachorros passarem mal.
Um
ano depois, o animal estava grande, bonito. E tudo continuava do
mesmo jeito. Até que um dia ele não apareceu.
Ela
ficou sentada na escada, esperando. No dia seguinte, também. Nada.
Resolveu
telefonar para o canil da cidade e perguntar se eles tinham visto um
cachorro marrom. Descobriu que eles tinham dezenas de cachorros
marrons.
Quando
perguntaram se ele estava usando coleira com o nome, ela se deu
conta que nunca dera um nome para ele.
Sentou-se
e ficou pensando no cachorro marrom que não tinha coleira com um
nome. Onde quer que estivesse, ninguém saberia que ele tinha de vir
todos os dias até seu portão para que ela lhe desse de comer.
Tomou
uma decisão. Dirigiu Beto até o canil e falou para o encarregado
que queria procurar o seu cachorro. Quando ele lhe perguntou o nome
do cachorro, ela se lembrou dos nomes de todos os amigos queridos
aos quais havia sobrevivido.
Viu
seus rostos sorridentes, lembrou-se de seus nomes e pensou em como
fora abençoada por ter conhecido esses amigos.
"Sou uma velha sortuda", pensou.
"O nome do meu cachorro é Sortudo", disse.
E
gritou, ao ver os cães no grande quintal: "aqui,
Sortudo"!
Ao
som da sua voz, o cachorro marrom veio correndo. Daquele dia em
diante, Sortudo morou com a velhinha.
Beto
parece que gostou de transportar o cachorro. Frida não se incomodou
que ele sentasse nela. Glória não ligou para os pelos do cachorro.
E
todas as noites Belinha faz questão de se esticar bem para que nela
possam se acomodar um cachorro marrom Sortudo... e a velhinha que
lhe deu o nome.
[Cynthia
Rylant]
Não
temamos nos afeiçoar às pessoas. Ninguém consegue viver sem amor,
sem amigos, sem ninguém. Não nos enclausuremos em solidão, nem
percamos a oportunidade extraordinária de amar.
Amemos
a quem nos rodeia. Também à natureza e os animais, recordando que
tudo é obra do excelente pai que nos criou.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.