Natal
combina com gestos simples - 21/12/2008
É
comum os hospitais, na semana que antecede o Natal, tentar mandar
para casa o maior número possível de pacientes. No entanto, alguns
sempre necessitam permanecer.
Esses
são atendidos pelos médicos que se oferecem como voluntários para
trabalhar na véspera e dia de Natal ou que obedecem à escala pré-fixada
pela instituição hospitalar.
Naquele
Natal, Heloísa estava um tanto chateada. Por ser solteira, fora
escalada para trabalhar naqueles dias, permitindo assim que seus
colegas ficassem com seus cônjuges, filhos ou pais.
No
dia de Natal, vários grupos de pessoas apareceram nas enfermarias e
distribuíram lembranças aos pacientes. Contudo, ao cair da noite,
eles se encontravam em suas casas.
O
imenso hospital ficou em silêncio. Muitos leitos vazios. As poucas
lâmpadas acesas nas mesas de cabeceira pareciam ilhas de luz na
escuridão.
Heloísa
ia de um paciente a outro verificando o soro, indagando sobre
sintomas, oferecendo medicamentos para a dor ou para dormir.
O
Natal é uma época de muitas lembranças e vários dos pacientes
desejavam falar sobre elas. Ela ouviu, naquela noite, muitas histórias.Tristes
umas, emocionantes outras. Até que chegou ao leito do Sr. Júlio.
Era um homem velho, a respeito do qual ninguém tinha bem certeza da
idade.
Um
andarilho, um desamparado. Nada mais trazia, quando chegara ao
hospital, que a muda de roupa que o vestia. Portador de enfisema crônico,
os médicos o mantinham hospitalizado, evitando que ele retornasse
ao frio intenso das ruas.
Era
tímido e gentil. Alegrava-se por qualquer coisa e se mostrava
agradecido pelos cuidados que recebia. Ele sorriu, ao vê-la.
Estendeu
a mão, abrindo a gaveta da velha mesa de cabeceira, onde estavam
guardados seus tesouros: um canivete, uma escova de dentes, uma lâmina
de barbear, um pente, algumas moedas e duas belas laranjas, que
ganhara naquela tarde.
Ele
tomou de uma delas, estendeu para Heloísa:
-Dona
doutora, Feliz Natal.
Seus
olhos demonstravam o enorme prazer que ele estava sentindo em
ofertar-lhe a fruta. E, de repente, muitas lembranças acudiram à
memória da médica.
Recordou
de sua infância, dos Natais em que sentia essa mesma alegria em dar
presentes. Algo seu. Especialmente preparado para a data, para alguém.
Tudo parecia tão distante. E tão perto. Lembrava-se de que tinha
aprendido muitas coisas desde então, mas que também esquecera
outras tantas.
Há
muitos anos, seu avô lhe ensinara aquela mesma maneira de viver que
o Sr. Júlio mostrava agora. Entretanto, ao longo dos seus anos de
formação acadêmica, a voz de seu avô acabara sendo sufocada
pelas vozes de seus familiares, de seus colegas, de seus
professores.
Ela
estendeu os braços e recolheu o presente, extremamente agradecida.
-Feliz
Natal, Sr. Júlio. - disse comovida com os olhos cheios de lágrimas.
[com
base em história de Rachel Naomi Remen]
É
preciso muito tempo até que nos conscientizemos de que os bens
preciosos que temos para dar não foram aprendidos nos livros. Também
que a sabedoria de viver bem não é conferida aos alunos mais
destacados nos estudos avançados.
Os
verdadeiros professores andam por toda parte. Basta saber colher as
lições que sua sabedoria nos transmite, nos gestos desprendidos,
simples e despojados.
Um
gesto simples como estender a mão, sorrir e desejar um Feliz Natal.
Repartir
o presente recebido, num gesto espontâneo de profunda gratidão.