O
burro de carga - 02/11/2008
No
tempo em que não havia automóvel, na cocheira de famoso palácio
real um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias
e remoques dos companheiros de apartamento.
Reparando-lhe
o pelo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça
tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe, que se
fizera detentor de muitos prêmios, e disse orgulhoso:
-
Triste sina a que recebeste! Não Invejas minha posição nas
corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pelas
palavras dos reis!
-
Pudera! - exclamou um potro de fina origem inglesa - como conseguirá
um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?
O
infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente.
Outro
soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e
comentou:
-
Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável
sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador. É tão covarde que
não chegava a reagir, nem mesmo com um coice. Não nasceu senão
para carga e pancadas. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.
Nisto,
admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem
piedade:
-
Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. É animal
desonrado, fraco, inútil... Não sabe viver senão sob pesadas
disciplinas. Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o
amor-próprio. Aceito os deveres que me competem até o justo
limite; mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações,
recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.
As
observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei
penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.
-
Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade -
informou o monarca - animal dócil e educado, que mereça absoluta
confiança.
O
empregado perguntou:
-
Não prefere o árabe, Majestade?
-
Não, não - falou o soberano - é muito altivo e só serve para
corridas em festejos oficiais sem maior importância.
-
Não quer o potro inglês?
-
De modo algum. É muito irrequieto e não vai além das extravagâncias
da caça.
-
Não deseja o húngaro?
-
Não, não. É bravio, sem qualquer educação. É apenas um pastor
de rebanho.
-
O jumento serviria? - insistiu o servidor atencioso.
-
De maneira nenhum. É manhoso e não merece confiança.
Decorridos
alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:
-
Onde está o meu burro de carga?
O
chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais. O próprio rei
puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas
resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho, ainda criança,
para longa viagem.
[psicografia
de Chico Xavier, ditado pelo espírito Néio Lúcio]
Assim
também acontece na vida. Em todas as ocasiões, temos sempre grande
número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos
prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a
suportar servir e sofrer, sem cogitar de si mesmos.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.