A
galinha afetuosa - 19/10/2008
Gentil
galinha, cheia de instintos maternais, encontrou um ovo de regular
tamanho e espalmou as asas sobre ele, aquecendo-o carinhosamente. De
quando em quando, beijava-o, enternecida. Se saia a buscar alimento,
voltava apressada, para que lhe não faltasse calor vitalizante. E
pensava garbosa: — “Será meu pintinho! será meu filho!”
Em
formosa manhã de céu claro, notou que o filhotinho nascia robusto.
Criou-o,
com todos os cuidados. No entanto, em dourado crepúsculo de verão,
viu-o fugir pelas águas de um lago, sobre as quais deslizava
contente. Chamou-o, como louca, mas não obteve resposta. O bichinho
era um pato arisco e fujão.
A
galinha, desalentada por haver chocado um ovo que lhe não pertencia
à família, voltou muito triste, ao velho poleiro; todavia,
decorrido algum tempo e encontrando outro ovo, repetiu a experiência.
Nova
criaturinha frágil veio à luz. Protegeu-a, com ternura, dedicou-se
ao filho com todas as forças, mas, em breve, reparou que não era
um pintinho qual fora, ela mesma, na infância. Tratava-se dum corvo
esperto que a deixou em doloroso abatimento, voando a pleno céu,
para juntar-se aos escuros bandos de aves iguais a ele.
A
desventurada mãe sofreu muitíssimo. Entretanto, embora resolvida a
viver só, foi surpreendida, certo dia, por outro ovo, de delicada
feição. Recapitulou as esperanças maternas e chocou-o. Dentro em
pouco, o filhote surgia. A galinha afagou-o, feliz, mas, com o
transcurso de algumas semanas, observou que o filho já crescido
perseguia ratos à sombra. Durante o dia, dava mostras de perturbado
e cego; no entanto, em se fazendo a treva, exibia olhos coruscantes
que a amedrontavam. Em noite mais escura, fugiu para uma torre muito
alta e não mais voltou. Era uma coruja nova, sedenta de aventuras.
A
abnegada mãe chorou amargamente. Porém, encontrando outro ovo,
buscou ampará-lo. Aninhou-se, aqueceu-o e, findos trinta dias, veio
à luz corpulento filhote. A galinha ajudou-o como pôde, mas, em
breve, o filho revelou crescimento descomunal. Passou a mirá-la de
alto a baixo. Fez-se superior e desconheceu-a. Era um pavãozinho
orgulhoso que chegou mesmo a maltratá-la.
A
carinhosa ave, dessa vez, desesperou em definitivo. Saiu do
galinheiro gritando e dispunha-se a cair nas águas de rio próximo,
em sinal de protesto contra o destino, quando grande galinha mais
velha a abordou, curiosa, a indagar dos motivos que a segregavam em
tamanha dor.
A
mísera respondeu, historiando o próprio caso. A irmã experiente
estampou no olhar linda expressão de complacência e considerou,
cacarejando:
—
Que é isto, amiga? Não desespere. A obra do mundo é de Deus,
nosso Pai. Há ovos de gansos, perus, marrecos, andorinhas e até de
sapos e serpentes, tanto quanto existem nossos próprios ovos.
Continue chocando e ajudando em nome do Poder Criador; entretanto, não
se prenda aos resultados do serviço que pertencem a Ele e não a nós,
mesmo porque a escada para o Céu é infinita e os degraus são
diferentes. Não podemos obrigar os outros a serem iguais a nós,
mas é possível auxiliar a todos, de acordo com as nossas
possibilidades. Entendeu?
A
galinha sofredora aceitou o argumento, resignou-se e voltou mais
calma, ao grande parque avícola a que se filiava.
O
caminho humano estende-se, repleto de dramas iguais a este.
Temos
filhos, irmãos e parentes diversos que de modo algum se afinam com
as nossas tendências e sentimentos. Trazem consigo inibições e
particularidades de suas personalidades que não podemos eliminar de
pronto. Estimaríamos que nos dessem compreensão e carinho, mas
permanecem imantados a outras pessoas e situações, com as quais
assumiram inadiáveis compromissos. De outras vezes, respiram
noutros climas evolutivos.
Não
nos aflijamos, porém. A cada criatura pertence à claridade ou a
sombra, a alegria ou a tristeza do degrau em que se colocou.
Amemos
sem o egoísmo da posse e sem qualquer propósito de recompensa,
convencidos de que Deus fará o resto.
PAZ, SAÚDE E PROSPERIDADE.