Para
quem é pai/mãe e para aqueles que o serão - 08/05/2005
Há
um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios
filhos. É que as crianças
crescem independentes de
nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com
alardeada arrogância. Mas
não crescem todos os dias de igual maneira.
Crescem de repente.
Um
dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal
maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas
daquela criatura.
Onde
é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário
com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?
A
criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e
desobediência civil.
E
você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não
apenas cresça, mas apareça!
Ali
estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes
sobre patins e cabelos longos, soltos.
Entre
hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos
com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos
ombros. Ali estamos,
com os cabelos esbranquiçados.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas.
E
eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos
acertos e erros.
Principalmente
com os erros que esperamos que não repitam.
Há
um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios
filhos.
Não
mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou
o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram
do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua
alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância,
e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres,
agendas coloridas e discos ensurdecedores.
Não
os levamos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes
demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos
os sorvetes e roupas que gostaríamos
de ter comprado.
Eles
cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No
princípio subiam a serra ou iam à casa de praia
entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas,
piscina e amiguinhos.
Sim,
havia as brigas dentro do carro, a disputa pela
janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois
chegou o tempo em que
viajar com os pais começou
a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a
turma e os primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas
"pestes".
Chega
o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando
muito (nessa hora, se a gente tinha
desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas
em busca de felicidade. E que a conquistem do modo mais completo
possível.
O
jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O
neto é a hora do carinho ocioso
e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não
pode morrer conosco.
Por
isso os avós são
tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos
são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por
isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles
cresçam.
Aprendemos
a ser filhos depois que somos pais.
“Só aprendemos a ser pais depois que somos avós...”.
[autor: Affonso Romano de Sant'anna]
Paz, saúde e prosperidade.